quinta-feira, 27 de julho de 2017

Os filhos, a mãe e a creche...

Quando minha mãe me visitava no orfanato, a pior hora, segundo ela, era a da despedida. Tocado o sino, os responsáveis tinham que sair por aquele enorme portão preto, sem olhar pra trás...

Ela conta que ouvia meus gritos e meu choro mesmo quando já estava muito longe daquele lugar. Ecoavam...

O mesmo eco que está agora nos meus ouvidos, quando deixei Nanda e Duda na escola, após a sessão com a fono e a psicóloga.

Dói, dói bastante. Acho que dói mais que a culpa que a gente sente em não poder entrar, ficar e acalmá-las até que o choro cesse. Eu sei que elas não vão se lembrar de nada disso, eu sei... Mas dói. Toda terça dói...

#NaPaulaSeSentindoCulpadaEChorosa #BenditosHormônios


sexta-feira, 2 de junho de 2017

Um diagnóstico errado, uma mãe aflita, um final de paz...

No ano passado, Nanda e Duda tiveram um 'diagnóstico' de autismo, dado por uma 'profissional' que sequer fez testes ou exames nas minhas filhas. O atraso na fala foi suficiente para ela me dar a 'sentença'. Passei o pior Natal da vida, chorei horrores, porque a gente sempre acha que falhou, que não fez o que deveria ter feito em algum momento, mesmo sem saber em que momento foi e o que poderia ter feito para que as coisas fossem diferentes...

Decidi procurar outros profissionais, que me pediram uma bateria de exames. Neuro, psicóloga, fono... Aguentei sozinha a pressão dos meus medos. Quando me sentia pequena, diante do desconhecido, me lembrava de que a minha força não estava no meu braço, nem nas coisas que eu podia fazer. Havia Alguém que poderia fazer muito além. Minha oração era: Deus, me ajuda a passar por isso. Não me deixa esquecer que o Senhor é maior do que tudo, que o poder e a força estão nas Tuas mãos... Se for isso, continue sendo o meu sustento e renova a minha fé. Se não for isso, preciso saber o que é..."

Havia algo "errado" no desenvolvimento delas (fala), e isso estava prejudicando no aprendizado na escola, na convivência com os coleguinhas e no nosso cotidiano.

Graças a Deus, achei duas médicas maravilhosas, que me olharam com humanidade, entenderam as minhas lágrimas e minhas angústias de mãe. E só quem também é mãe entende outra de verdade...

Após 5 meses de tratamento e acompanhamento, de quase "zero frases" elas estão sabichonas e falantes. Estão tagarelando muito e já passamos de 60% de melhora na fala. O neuro deu dois anos para as coisas se acertarem. Elas têm uma imaturidade cerebral, que faz com que se comportem, na fala, como se tivessem 1 ano e meio. Nada que seja 'retardo' mental, apenas não houve o amadurecimento necessário (ainda).

Hoje (30/05), foi TOTALMENTE descartado qualquer traço de autismo. Mas o diagnóstico precipitado da 'profissional' me fez mergulhar nesse mundo azul e ver como as mães de crianças com essa característica são discriminadas. São julgadas. São massacradas emocionalmente até por outras mães e pessoas que acham que o comportamento da criança é birra ou falta de surra.

Nesse longo período em que estive nessa balança emocional, me propus a ter ainda mais empatia com outras mães. No shopping, quando via alguma criança com "comportamento diferente", minha vontade era ir lá e dizer à mãezinha: "Olha, eu te entendo. Você está fazendo um ótimo trabalho. Vai passar".

Quando recebi a notícia do (novo) diagnóstico das meninas, chorei. Aquela lagriminha furtiva, rápida. As duas profissionais que acompanham as meninas já me diziam que duvidavam dessa possibilidade, mas que iriam fazer as análises necessárias para dar o 'veredito' final.

Durante esse tempo, sorri como sempre. Mas chorei algumas vezes como nunca. Você não sabia, você não soube. Na verdade, ninguém sabe o que o outro passa por dentro de verdade. Não se esqueça de ser gentil sempre!

Aos (poucos) que sabiam da história, obrigada pelas orações. Vocês me mantiveram de pé!

Bjs da NaPaula




Minha nada mole vida de mãe...

Tava eu lá apagada, no meu décimo sono, quando acordo com os berros de Eduarda: "mamãaaaaaae, mamãaaaaaae, vem cáaaaaaa!".

Nos primeiros 2 segundos, achei que ela acordou e estranhou não estar na minha cama (transformei os berços em caminha, pra ver se elas se apaixonam tanto pela cama delas quanto são apaixonadas pela minha - a coluna da mãe agradece!), mas o segundo berro estava bem apavorado, ao que dei um pulo e já "caí" no quarto delas.

Mesmo com tudo apagado, enxerguei a cena: ela, sentada, vomitando pra tudo que é lado, nervosa ao quinteto. Respiro fundo, seguro a mão dela, digo que está tudo bem, que a mamãe vai ajudar. Espero pelo último "passar mal" e levo voando pro banheiro. Ligo o chuveiro, tiro a roupa dela e a deixo aproveitando a água quentinha. Enquanto isso, corro lá embaixo, pego Veja e pano e subo correndo pra limpar o quarto. Lençol e travesseiro vão lá pra escada, bem longe! Limpo cama, colchão e troco a roupa de cama.

Volto pro banheiro e ela está lá, meio sem saber o que aconteceu. "Mamãe, saiu pela boca". Sorrio e digo: "Foi, meu amor? Mas já passou..." Enrolo na toalha, levo pra minha cama, troco de roupa e pergunto, de novo, se está bem. "Tudo bem, mamãe".

- Mamãe, faz dederinha?
(- Nem pensar, penso. Mamadeira de leite com nescau depois dessa tragédia?)
- A mamãe vai trazer um pãozinho, pode ser?
- Pode ser...

Desço e pego um pãozinho Panco, sem nada. Ela come e já quase dorme. Vigio até pegar no sono. "Que horas são, meu Pai?!?" Olho no relógio: 1h50. "Ah, não vou lavar lençol essa hora, ainda mais no frio!" Jogo no tanque. "Quando elas saírem pra creche amanhã, resolvo!" São 2h30 agora. Ambas dormem a sono solto. E a mãe aqui não consegue "desligar". Amanhã, mais um capítulo da série The walking Paula.

Por favor, tenham mais paciência com as mães. Sempre. Enquanto vocês dormem, tem sempre uma no plantão da madrugada...

Bjs da NaPaula

Escrito em 31/05/2017






sexta-feira, 5 de maio de 2017

Uma música, uma saudade e um pedido...

Ouvi a nossa música mais uma vez hoje. Na verdade, deve ser a milésima nonagésima vez. Quando aperto o repeat na playlist, ela quase me olha, dizendo: “cansa, não?!?” Não, não canso. Nem da música, nem das lembranças que ela me traz. E ela me traz você todas as vezes, como cansar?

Ela me traz aquele seu sorriso franco, aquela gargalhada gostosa e barulhenta que eu adoro. Ela também me traz a tua presença e o teu perfume, aquele que me entorpece os sentidos e me coloca na boca um quê de quero mais.

Ouço-a repetidamente, enquanto faço carinhos imaginários em você de olhos fechados. Seus cabelos passam entre os meus dedos, sua textura fica no meu tato e eu quase te abraço de tanto bem-querer.

Ouço, ouço mesmo! Ouço a caminho do trabalho, com o volume mais alto que meus tímpanos aguentam. Ouço e cantarolo, expondo pros que me olham que você é a minha música preferida. Ouço e danço, ao som do nosso embalo frenético e recorrente. Ouço e balbucio seu nome: cada letra, cada som, cada fonema, cada tom, cada eu e você que ela permite formar.

Ah. vem cantar comigo a nossa música, vem! Vem errar o tom, errar na mão, acertar no passo, nesse compasso que a gente inventa bem. Vem! Vem, sem plateia, só nós, a sós, a dois, assim, em você, em mim. Vem!

Vem, que a nossa música está tocando mais uma vez e eu vou ser sua novamente pelas letras da canção.

Vem!

Ao som (e risos) de Medo bobo, Maiara e Maraisa



segunda-feira, 10 de abril de 2017

O coração, a razão e a hora de ir...

A dor é indescritível. Ela percorre cada parte do meu corpo e parece doer ainda mais ali, naquele músculo que fica bem no meio do meu peito. Coração. A culpa é sempre dele. Meu cérebro bem que avisou, o sexto sentido deu vários sinais, mas o coração, olha, ô bichinho fraco. A culpa também é sua! Claro que é! Culpa desse sorriso lindo, desses olhos que cativam, dessa mão que afaga, dessa voz que inebria... 

Por falar em inebriar, estou tonta. Não, não bebi... Apenas te vi com outra pessoa... A gente sabia que isso iria acontecer cedo ou tarde. Bem que eu queria que fosse tarde, ainda tinha esperanças de que nos veríamos mais uma vez, e outra, e outra, até que deixaríamos de ser encontros esporádicos para nos tornarmos eu-e-você, com direito a declaração de amor em nossas redes sociais e fotos com cara de casal feliz.

Mas isso não vai acontecer... Aí está você, em uma mesa próxima a mim e nem me viu. Penso em fingir que vou ao banheiro, só para esbarrar na sua cadeira. "Deixa de ser idiota", diz meu cérebro. "Aja como adulta e supere isso, afinal, vocês não tinham nada sério". A pontada aumenta. Coração reage. "Se eu fosse você, iria mesmo, só pra ele ver que você não está em casa, de blusa de malha e meias, assistindo uma série qualquer, como ele supõe. Humpf". 

Fico a lembrar dos momentos que tivemos: do brigadeiro de panela, naquele dia com chuva; dos passeios de bicicleta no seu bairro; dos banhos de mar e dos beijos salgados. Da sua teimosia, do seu cafuné, do seu beijo bom. Ah, do seu perfume, que vira e mexe vem se esconder no meu olfato. Do seu tato, do nosso contato, dos sons que até o nosso silêncio era capaz de ouvir... Por um segundo, abaixo a cabeça e entendo que o plano era sermos ou estarmos felizes. Você estava, e era isso que importava. Eu deveria ser ou serei. 

Respiro fundo e prefiro ouvir meu cérebro, o mais sensato de nós. "Me desculpa, coração, mas é hora de ir. Há meias e uma camisa de malha cinza nos esperando. Te dou um chocolate, pode deixar".
E seguimos nós, cérebro, coração e eu, sabendo que chega uma hora em que é preciso ser feliz sem ter alguém que já é feliz sem a gente.

Ao som (e lágrimas) de Corazón partío, Alejandro Sanz...




quarta-feira, 8 de março de 2017

Para você que vai chegar...

Eu pensei que você chegaria para o meu aniversário. Eu sei, ansiedade... Mulher, né, você sabe... Imaginei você preparando uma festa surpresa, convocando nossos amigos, minha cara de besta, o primeiro pedaço de bolo seria nosso (ainda não sei dividir comida, tenha paciência!)... Eufórica, abriria o presente, como criança. Lá dentro, aquele cordãozinho de ouro que paquero há meses, delicado como os carinhos que você me faz... Daríamos um longo abraço, eu te olharia nos olhos, encostaria meu nariz no teu, fecharia os olhos e te daria um beijinho rápido, já que você não gosta muito dessas demonstrações em público... Riríamos juntos, dançaríamos a nossa música, seria uma noite feliz, como venho sonhado faz tempo...

Mas você não chegou...
Uma parte de mim embruteceu, sabe, acha que isso tudo é bobagem, é perda de tempo. Vive mandando eu guardar esse amor na gaveta, até que eu não me lembre mais, como se fosse uma conta antiga, já paga, esquecida no fundo do móvel. Eu tentei ser assim, juro. Até fui. Mas há uma outra parte de mim que insiste em manter o jardim em ordem. Essa parte me rega, pra que eu seja flor e não pedra. Ela ainda sonha, tola que é. Sonha com os passeios de mãos dadas que eu gosto tanto. Ela diz que ainda vamos dar a nossa volta na Lagoa e tomar água de coco por lá. Passearemos de bicicleta até ficarmos com as pernas dormentes! Essa minha parte Insiste pra que eu não esqueça como era bom ter em quem pensar e pra quem voltar. Eu tento desistir, mas essa parte não deixa.

E é essa parte, meu querido, que ainda escreve pra você, que ainda olha pela janela todos os dias e diz pra si mesma: sorria, pode ser hoje!

Às vezes, rabisco nomes imaginários no papel, e rio de tamanha bobeira. E aí penso: Será que em algum lugar você também rabisca meu nome? Será que pensa em como eu seria? Imagina o tom da minha voz e o brilho da minha gargalhada? Com que cor você colore os meus olhos? Qual a altura que você imagina que eu tenha?

Abaixo a cabeça. A parte bruta diz novamente pra eu endireitar a postura e respirar fundo, enquanto a outra diz: "tudo bem, eu enxugo essa lágrima que quis evaporar no seu rosto"... (Agradeço, sem que a outra perceba) "Não fica assim, não! Quando menos esperar, ele vem, ele chega. E você vai saber que ele veio pra nunca mais ir, e a pedra será flor novamente..."

Que assim seja... Até mais, Boás



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Eu sinto muito...

Era pra ser um dia como outro qualquer. Ela acordou no mesmo horário, como de costume, após o barulho estridente do despertador.

Levantou-se, caminhou até o banheiro, e abriu o chuveiro devagar. A água estava tão quentinha. Entrou de cara, molhou as costas. Usou o sabonete líquido de sempre. "Não posso me atrasar", pensou enquanto deixava a água escorrer pela nuca. 
A roupa já estava separada em cima da cadeira. Arrumou-se rápido. Colocou o brinco olhando para o espelho, ajeitou o cabelo, passou o batom. Tirou o excesso, olhou as horas e fez cara de quem estava em cima da hora. Passou a mão na bolsa, colocou-a no ombro e desceu a escada em galopes apressados. "Tchau, mãe!", disse enquanto pegava a chave do carro em cima da mesa. "Vai com Deus, minha filha", ela ouviu de longe.

O sol estava a pino. Ela colocou os óculos escuros, abriu o portão e, a partir daí, tudo o que ela mais temia aconteceu... Ela não sabe se já esperavam por ela ou se ela foi uma escolha ao acaso. Era início da manhã... Ela só percebeu do que se tratava quando viu a arma. "Perdeu, perdeu! Passa tudo!" Ela demorou a entender, foi tudo muito rápido. Empurram-na na calçada... "A bolsa, a bolsa!", os pedidos eram feitos entre gritos e palavrões... Ela entregou e nem levantou a cabeça... Até que ela ouviu sua sentença: "Leva ela!"

Um pavor percorreu cada centímetro do seu corpo. Uma descarga absurda de adrenalina, os batimentos descompassados, lágrimas, choro, terror. Do banco de trás, ela via sua casa desaparecer... Não adiantou pedir: "por favor, me deixem ir. Fiquem com tudo..." Eles queriam mais...

Após aterrorizarem-na com palavras, gestos e tudo o mais de abominável que se possa imaginar, decidiram pelo hediondo. Naquele lugar para onde a levaram, ninguém ouviu seus gritos. A cada "não!", o peso da mão do algoz a acertava no rosto. Em cada pedido de desespero, a ponta da faca sangrava sua pele. Diante do inevitável, os olhos paralisaram no teto, e ela viu cenas da sua vida: o cachorro da infância; as brincadeiras com os irmãos; o beijo na testa que o pai dava antes de sair; o amor da sua vida; o último Natal; os fogos do Ano-Novo... Até que, de repente, sua mente se desligou, para que a alma não sofresse tanto... 

Quando os seus olhos se abriram novamente, ela não sabia se havia morrido ou se estava presa em um pesadelo... Tentou se mexer, e uma dor lancinante percorreu toda a sua carne. Fechou os olhos novamente, com medo de ainda ter alguém ali. Não havia som algum, então ela abriu os olhos novamente... Levantou devagar a cabeça, na tentativa de ver onde estava. Seu corpo estava ensangüentado... Não viu suas roupas, nem havia nada com que pudesse se cobrir. Apoiou-se no chão. Arrastou-se até onde pode e encostou-se na parede. Olhou ao redor, olhou novamente pra si e caiu em um choro silencioso. Não haviam tocado apenas no seu corpo, tinham ferido profundamente a sua alma... E era uma dor que remédio algum aliviaria naquele momento...

Ela conseguiu se levantar, abriu a porta daquele lugar e saiu caminhando sem direção. Não fazia idéia de onde estava, mas lá na frente avistou uma luz. Vergonha, medo e impotência a acompanhavam. Bateu no portão, e quando ele se abriu, ela só conseguiu dizer: "me ajuda"... 

Um lençol estampado devolveu-lhe a dignidade no momento. Não sabiam o que fazer, se podiam tocá-la. E choraram. Todos choraram. Silenciosamente, todos choraram. Ela quis tomar um banho, mas disseram que seria melhor ir para a delegacia primeiro. Ela pediu para fazer uma ligação, e foi pra ele. Ele que sempre soube o que fazer... "Me tira daqui..."

Sirenes, polícia, hospital, corpo de delito, curativos, coquetel de remédios, perguntas, choro, "como será que ela estava vestida", banho. E, no banho, ela tentava esfregar a dor, a raiva, os porquês, a frustração, o ódio... E chorou tanto e tanto que já não suportava mais chorar.

Deitou na sua cama, olhando pra parede. A voz sumiu, o olho petrificou, a alma saiu dela. Ninguém diz nada, ninguém pergunta nada. Apenas dizem: "estamos aqui".

Quando eu soube o que fizeram com ela, chorei. Meu corpo todo tremia de pavor e raiva. Ela vivenciou a violência em sua pior forma. Ela não ouviu falar; ela sentiu. E eu quis tanto abraçá-la, quis ir lá e colocar a cabeça dela na minha perna e fazer um carinho no cabelo dela. Eu chorei muito. E até agora penso nela. Não consegui desligar... Eu sinto muito por você ter passado por isso, sinto muito. Há uma dor no meu coração que você não sabe, talvez porque eu entenda tudo que você tenha passado, e eu jamais gostaria que alguém passasse por essa dor também... Eu sinto muito! Perdoe os que se sentam na beirada da cama e nada dizem... Eles não sabem que palavras usar... Eu sei que você não sabe como vai sair disso agora. Mas essa dor não será para sempre. Ela vai ter um tempo. Estaremos todos esperando por você aqui, pelo seu sorriso, pela sua vontade enorme de viver...

Vai passar.
Vai amanhecer.

Até lá...